indicamos o livro “o calibã e a bruxa”

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Sabe aquela leitura profunda, que exige um tanto de presença e paciência, mas que é transformadora? Então, amiga, o livro O calibã e a bruxa — mulheres, corpo e a acumulação primitiva, é assim. Escrito pela historiadora italiana Silvia Federici, a obra mostra como a caça às bruxas lançou as estruturas para a construção da exploração capitalista. É um olhar para o passado, mas que, infelizmente, ainda tem suas violências de gênero bem organizadas no presente. Para mudarmos nossos futuros, precisamos conhecer o que aconteceu e é por isso que ler Federici é tão imprescindível.

Você deve se lembrar das aulas sobre feudalismo, na escola. Aprendemos que a fase foi até um pouco monótona, né? Pois bem, a historiadora conta que não foi exatamente assim e que, inclusive, havia muita luta e muita resistência por parte das pessoas que estavam sendo afastadas de suas terras e de suas vidas comunitárias. Eis o embrião do capitalismo, segundo ela. Até aquele momento, mulheres tinham acesso à terra. Eram lavradoras, curandeiras, parteiras. Mulheres com conhecimento sobre a natureza, seus ciclos e o que dela brotava. Tinham autonomia sobre seus corpos e isso significava que decidiam elas mesmas sobre manter uma gestação ou interrompê-la. E foi aí que a caça às bruxas apareceu como forma de castrar o controle que tinham sobre seus direitos reprodutivos.

O que tinham em comum essas mulheres perseguidas? Eram solteiras, autônomas, independentes e irreverentes. Soa familiar, não soa? Ainda hoje vemos a história se repetir. Por mais que mudem os contextos, os panos de fundo, ainda assim o que tentam podar é nossa liberdade sobre nosso corpo, sobre nossa vida, sobre nossa existência.

O domínio das mulheres — seja antigamente ou agora — está intrinsecamente relacionado ao capitalismo e à necessidade de dominar a classe trabalhadora. Com os campos começaram a ser cerceados e as terras começaram a ser privatizadas, o sistema de terras comunais se enfraqueceu. A classe feminina, que já tinha menos direitos e menos poder social, dependia desses espaços coletivos para garantir a subsistência e também fazer operar a sociabilidade.

Confinadas ao trabalho reprodutivo, foram ainda mais desvalorizadas. A produção passou a ser monetizada; a reprodução (e o cuidado), não. Nas entrelinhas, a mensagem era clara: o trabalho da mulher — ao gerar e criar filhos, as futuras mãos-de-obra — não valia nada. O trabalho doméstico e sua função fundamental na acumulação do capital foram invisibilizados. A transição do feudalismo para o capital libertou o capital, mas aprisionou as mulheres e pauperizou a classe trabalhadora.

Éramos não trabalhadoras, apesar de um trabalho imenso que realizávamos. Foi necessário muita luta para, hoje, termos direitos assegurados. Ainda assim, a desigualdade é gritante. Mulheres, mesmo que mais escolarizadas, recebem menos que os homens — e a situação é mais alarmante se compararmos dados de faturamento de homens brancos e mulheres negras que ocupam a mesma posição de trabalho. Vale dizer: a chamada “economia do cuidado”, — conjunto de atividades não remuneradas, como tarefas domésticas e cuidados com crianças, idosos e entes doentes de uma determinada família —, corresponde, hoje no Brasil, a 11% do PIB, segundo dados do IBGE. A gente sabe quem é, na grande maioria dos casos, que exerce essas funções, não sabe?


Mas nem tudo está perdido. Lá atrás, durante a caça às bruxas, muitas mulheres capturadas pelos tribunais preferiam morrer a entregar outras de nós. Federici, que aqui no Brasil foi editada pelo esforço de muitas feministas que se juntaram para traduzir seu trabalho, vê que a resistência feminina perdura ainda hoje, e que é, como sempre, uma flâmula de esperança: “Quando vejo mulheres unidas, trabalhando juntas para traduzir um livro sobre resistência feminina, sei que a força dessas bruxas ainda está viva”.

Por isso, a gente faz esse convite pra você: convoque suas bruxinhas e faça um clube do livro com essa obra-prima! Reúnam-se a cada semana para discutir achados da leitura, para traçar planos de resistência e para botarem em ação a mudança que a gente quer tanto ver acontecer. Seguimos juntas.


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