Dia da Amazônia: por que o mindset indígena pode salvar o mundo

conteúdo produzido por Emily Ewell, CEO da pantys, após uma imersão sociocultural na tríplice fronteira amazônica, entre Brasil, Colômbia e Peru.

No Dia da Amazônia, celebrado hoje, 05 de setembro, gostaria de falar mais da experiência única que vivi em Letícia, na tríplice fronteira amazônica, entre Brasil, Colômbia e Peru. Na Pantys, mais do que respeitar e apoiar os direitos dos povos nativos, nós acreditamos no intercâmbio intercultural para repensar nossos valores perante à Terra e, além de valorizar outras formas de viver, refletir sobre possíveis soluções para os desafios e dilemas que temos pela frente.

Sendo assim, o convite para participar da conferência bienal da Sociedade para a Antropologia das Terras Baixas da América do Sul (SALSA), com apoio da Universidade Nacional da Colômbia, da Universidade Nacional da Amazônia Peruana (UNAP) e da Universidade Federal do Amazonas, e com participação de comunidades indígenas, tornou-se mais uma oportunidade de participar de ambientes de debates e reflexões sobre questões indígenas.

Apesar de já trabalhar há vários anos na região, com doações de produtos menstruais da Pantys, eu tive muitos aprendizados sobre características do mindset indigena que podem provocar grandes transformações, não só nas nossas organizações, mas na forma como nos relacionamos entre nós. Destaco três pontos:

 

  1. Mindset

A sabedoria ancestral indígena é centrada na abundância. Eles vivem em total harmonia com a natureza, sem sentir falta de nada. A floresta, que serve como lar e local sagrado, também cede lugar para o plantio de alimentos, sem necessidade alguma de desmatamento, com a consciência de que todos formam um único ecossistema. Não existe a Terra e a humanidade; somos um só. Aprende-se cedo a ouvir a natureza, pois pequenas mudanças podem causar grandes impactos, muitas vezes desconhecidos e nem sempre imediatos. Um sistema de água em uma cidade colombiana, por exemplo, afetou uma espécie de ave. Se pararmos para pensar, as luzes dos nossos centros urbanos também provocaram alterações na rotina de algumas aves, que passaram a cantar madrugada adentro.

O ponto principal é que, desde a colonização, a cultura ocidental é centrada na dominação e na exploração, alimentando um ciclo vicioso de escassez. A cultura dos povos indígenas quebra esse paradigma, ao colocar o foco no cuidado e no compartilhamento, tanto no que diz respeito à natureza, quanto às pessoas. Confesso que eu mesma não consigo me lembrar de um momento em que não senti falta de algo ou que me senti 100% segura, com todas as necessidades atendidas. Ouvi-los provoca uma mudança profunda de mindset, pois percebemos que, ao contrário do que aprendemos, nós já temos tudo. O apego e o acúmulo perdem sentido. A produção acelerada para alimentar o consumismo desenfreado, que gera tanto desperdício e impacto negativo, é colocada em xeque. E é este mindset doentio que também está degradando o planeta. E pode colocar tudo o que temos a perder.

“Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos.”

Ailton Krenak (Ideias para adiar o fim do mundo)

2. Propriedade

Dentro dessa cultura de abundância, a visão sobre propriedade muda completamente. Ninguém é dono de nada, ao contrário do que prega a sociedade ocidental, que, desde os tempos mais remotos, disputa e toma para si terras e objetos. Por trás dessa luta, está o desejo por controle e poder, que se manifesta em um direito de uso e exploração, não só do meio ambiente, mas também das pessoas. No mindset indígena impera, segundo a antropóloga Elizabeth Ewart, da Universidade de Oxford, a generosidade. Essa palavra não simboliza o altruísmo, mas uma cultura de doação do que se tem, como símbolo não só de desapego, mas de relações de reciprocidade e intimidade. E essa educação começa cedo. A criança indígena não compartilha simplesmente o seu brinquedo com outra, retomando-o no final; ela o entrega à outra. Não é algo provisório. Assim, ela começa a compreender o outro como mais importante do que qualquer objeto ou matéria. Derruba a parede da diferença, do distanciamento e da separatividade tão inerentes à nossa sociedade.

Isso também se verifica em relação à natureza. Pouco foi noticiado sobre uma conquista do povo Wari, residente na fronteira do Brasil com a Bolívia. Por meio do vereador Francisco Oro Waram, foi aprovada em Guajara-Mirim (RO) de forma unânime a lei que reconhece o Rio Laje “como entidade viva e sujeita de direitos”. Como explicou a antropóloga Beth Conklin, presidente da SALSA, no fechamento da conferência, essa lei dá ao rio “o direito de “manter o seu caudal natural”, “nutrir-se e “ser nutrido”, “existir com as suas condições físico-químicas adequadas ao seu equilíbrio ecológico”. Mais do que isso, a lei é um avanço enorme ao reconhecer o sistema interconectado, integrado e interdependente em que vivemos. Não somos donos de nada, nem de ninguém, mas é nossa obrigação cuidar de tudo e de todos, como parte deste sistema.

“Devíamos admitir a natureza como uma imensa multidão de formas, incluindo cada pedaço de nós, que somos parte de tudo: 70% de água e um monte de outros materiais que nos compõem. E nós criamos essa abstração de unidade, o homem como medida das coisas, e saímos por aí atropelando tudo, num convencimento geral até que todos aceitem que existe uma humanidade com a qual se identificam, agindo no mundo à nossa disposição, pegando o que a gente quiser.”

Ailton Krenak (Ideias para adiar o fim do mundo)

3. Liderança

Dentro deste mindset, é óbvio que o papel da liderança muda. O status está diretamente ligado à ética e à contribuição social, não a dinheiro ou poder. Não há espaço para o individualismo, porta de entrada na nossa sociedade para uma série de moléstias, da escravidão à atual desigualdade social, passando pela degradação do planeta. Segundo a Oxfam, cada bilionário emite, em média, 1 milhão de vezes mais gases de efeito estufa do que uma pessoa comum. A fatia de super ricos fatura mais do que 90% da população mundial. Esse desequilíbrio brutal e nefasto é reduzido dentro de uma cultura de cuidado e compartilhamento.

Segundo Ewart, o papel da liderança nas comunidades não pressupõe o acúmulo de riquezas, mas a redistribuição delas, já que cabe ao líder cuidar dos demais, preservar a cultura e nutrir relações sociais positivas. É a visão do coletivo em detrimento do indivíduo, do ecocentrismo em vez de egocentrismo. Em seu artigo, ela ressaltou o efeito da cultura do homem não-indígena em uma comunidade nativa até então não monetizada. O dinheiro ganhou o valor ocidental, isto é, de uma “entidade” que motiva e regula objetivos e relações sociais. A indenização ganha do governo por perda das terras provocou problemas de gestão até então inexistentes e muito parecidos às organizações das nossas empresas. O dinheiro foi mal aplicado, não se limitando às necessidades locais, gerando desperdício e escassez. Além disso, a desconfiança brotou como erva daninha, aumentando os desentendimentos e gerando rotatividade dos membros no conselho.

O mindset indígena, em relação à liderança, não se deixa iludir por externalidades ou por palavras bonitas, como acontece na nossa cultura, pautando-se por uma sabedoria embasada em relacionamentos, comportamentos e valores sólidos. Esse tripé também alimenta nossas organizações e a nossa sociedade, podendo se configurar como riscos e ameaças ou como segurança e prosperidade. Esse mindset ancestral é o motivo pelo qual a população nativa resistiu à colonização e se mantém resiliente diante das tentativas de “progresso” impostas pela autoproclamada civilização.

Como já deve imaginar, eu poderia abrir muitos tópicos – inclusive sobre o feminino, a maternidade e a menstruação. Conheci mulheres inspiradoras e alguns ensinamentos e histórias eu devo compartilhar no Painel “Amazonian Women: Gender, Blood and Ancestral Wisdom”, no SXSW 2024 

Voltei de Letícia com a convicção de que Sustentabilidade não é um resumo de atividades, mas um mindset. E, para atualizar o nosso “sistema operacional”, nós precisamos “hackear” e aprender com as pessoas que vivem em harmonia com a natureza e entre si.


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