Descansar é um ato revolucionário


Carolina Delboni é educadora e escritora. Especialista em comportamento adolescente. Colunista do Estadão, atua também como consultora educacional e palestrante em escolas e instituições. É autora do livro Desafios da Adolescência na Contemporaneidade.


Num mundo como o nosso, descansar é um ato revolucionário. Mas é o descanso que nos garante não só a saúde do corpo físico, mas a da cabeça também.

Às vezes, parece meio óbvio dizer que férias, descanso, ficar fazendo nada, ajuda a gente a sossegar, acalmar a mente, a tranquilizar o corpo. Mas, às vezes, o óbvio precisa ser dito. Porque numa sociedade como a nossa que valoriza o trabalho a todo e qualquer custo, parece que descansar virou pecado. Como assim você está fazendo nada?!

Pois é, descansar é um ato revolucionário e vou acrescer aqui q descansar para as mulheres é uma batalha ainda maior. O Brasil tem 6 milhões de mulheres a mais que homens, segundo dados do IBGE. Representamos 51,5% da população e temos 20% a mais de riscos ao esgotamento que homens.

Pós pandemia, 45% de nós mulheres fomos diagnosticadas com ansiedade, depressão e outros tipos de transtornos, segundo pesquisa realizada pela ONG Think Olga. Mas por que eu tô falando tudo isso?

Porque, mais que o descanso em si, esta é uma maneira de cuidar da saúde mental. O Brasil é um dos países recordistas de pessoas com transtornos de ansiedade e depressão e isso inclui adolescentes e jovens que costumam chegar ao final do ano letivo esgotados, fisicamente e mentalmente.

O tema tem se tornado tão relevante que as pesquisadoras Thais Fabris e Maira Blasi criaram a Declaração pelos direitos dencansistas. Entre as diversas propostas, a meta delas é melhorar o bem-estar feminino. A socióloga americana Tricia Hersey, 49 anos e autora do 'Rest is Resistance’, é outra defensora da pausa. Ela diz que o cochilo é uma “maneira de enfrentar a obsessão da nossa sociedade com a produtividade a qualquer custo”, segundo entrevista publicada na Folha de SP.

Pesquisas, estudos e dados têm deixado cada vez mais evidente a relação positiva que tem o descanso com a boa saúde mental. E é esta combinação que vai nos garantir uma melhor qualidade de vida porque a gente alivia a fadiga física e o estresse emocional.

Vale a máxima de que “tempo é lazer” – e não mais dinheiro - e bora colocar esse lema em prática. Como? Primeiro se permitindo descansar. Compreendendo que é ele que vai garantir seu melhor rendimento quando você voltar para a escola, faculdade ou trabalho.

Depois fazendo “nada”. Isso, nada. Fazer nada pode ser muito. É o que ensina Robert de Niro na série Nada, em cartaz na plataforma Starts. Um desses aprendizados é entender que não fazer nada ou não ter obrigações é importante para a mente se acalmar e produzir mais e melhor. É como fazer uma limpeza interna. Um detox para usar uma palavra bem contemporânea. E claro que isso inclui diminuir as horas intermináveis nas redes sociais. Parece missão impossível, né?

Faça combinados. Estipule horários, tempo. Se proponha ao desafio de ficar menos tempo na tela. Aproveite para olhar o horizonte, escutar os passarinhos, o vento, as folhas que se mexem. Aproveite para praticar o “nada”. É daí que nascem os momentos criativos. É quando a gente dá a chance da mente esvaziar que ela se permite a pensar em soluções criativas. Você sabia disso?

A teoria do sociólogo Domenico de Masi nasce daí, nos anos 90. Ele observa que pessoas em ócio são mais criativas do que as que produzem incansavelmente. Para isso, ele incentiva que as pessoas equilibrem trabalho e/ ou escola com tempo livre e lazer.

Claro que o mundo nos anos 90 era bem mais simples do que hoje, em 2023. Existe uma série de estímulos viciantes que dificultam esse equilíbrio entre o fazer e o nada. E parece que ficar horas deitada na cama rolando a tela para cima é uma maneira de se distrair e descansar, mas não é. As imagens que não cessam acabam cansando na mente o que especialistas chamam de “poluição mental”. Parece besteira? Não é.

Talvez este seja dos maiores desafios aos adolescentes e jovens dessa geração: se desligar das telas e descansar. Descansar a visão, os olhos, a cabeça, o pensar, o não pensar. Aproveitar o tempo fora das telas para observar o mundo por outros ângulos. Descobrir outros sabores na comida que você diariamente, mas muitas vezes está ali com o celular na mão e se perde entre a tela e o prato na mesa.  

Aproveita para dormir de noite e não de madrugada. Se for necessário, reserve um tempo de preparo. Pode ser um banho mais longo, uns 15 minutinhos de sofá com uma máscara facial ou aproveitar para tomar dos chás do Kit Fases da Pantys. O importante é achar algo que te dê prazer e te proporcione bem-estar.

Ah, e a natureza. Não esqueça da natureza. Estudos mostram que estar perto da natureza tem relação com a melhora de vários índices de saúde e de bem-estar, como a diminuição da pressão arterial, a redução dos hormônios associados ao estresse, a melhora dos batimentos cardíacos, do humor, da função cognitiva, por exemplo.

Você sabia que o nosso corpo entra em sincronia com o ritmo da natureza? Com o tempo da vida no meio das árvores ou perto do mar? São duas pulsações que se alinham e isso traz uma paz, uma calma revolucionária. Experimente. Final de ano tá logo aí. Sem escola, sem faculdade, sem tela. Com direito ao nada e ao infinito do horizonte.


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