Querido 2020, uma carta de 2019 para 2020

querido, 2020

Dessa vez eu não vou fazer listas para você.

Em 2019 eu fiz tantas coisas incríveis que não estavam nelas.

Aliás, as coisas mais lindas não cabem mesmo em listas,

elas não cabem nem sequer no nosso coração.

Transbordam

em brilho no olho,

em arrepios,

em gozo

e também em lágrimas.

Afinal, nem a lua brilha em todas as suas fases,

e é nas nossas sombras que aprendemos a enxergar
os caminhos impossíveis que nos levam muito além.

 

Meu já amado 2020, você nem existe em número,

isso é bobagem de quem usa relógio demais.

Aliás, a gente precisa diminuir o ritmo, né?
Nossas ancestrais não corriam tanto,

elas se preocupavam mais em estar juntas e sentir.

Talvez porque eram guiados pela velocidade paciente da natureza,
contavam não as horas,
mas as estações do ano,

as luas.

O tempo que uma flor leva para brotar nunca pode ser previsto

e nem esperado com ansiedade,
es flores simplesmente acontecem.

E eu prometo que vou me deixar acontecer mais também,

com a mesma calma dos peixes que esperam as chuvas

para nadar contra a corrente.


Meu suave 2020,
que nesse novo tempo eu seja mais água,

que eu não engula nenhum choro,

porque isso endurece.

E o que o mundo precisa é do meu feminino,

da minha sensibilidade ,
e que alívio é saber isso hoje e poder libertar em mim
essa mulher que sente.

Que eu fique mais perto da natureza,

consciente que ela não é um cenário onde eu moro,

mas que eu sou bicho e parte dela,

e que a gente respira juntinho com tudo que é vivo.
E isso é suficiente para saber o quão forte e mágica eu sou.

 

Então venho hoje celebrar esse (re)aprendizado ancestral do tempo,

de comemorar um ciclo que se inicia - e não apenas um número.

E pedir, 2020, que a gente caminhe lado a lado em paz,

e eu não repita que “nem vi o ano passar”.

Eu quero ver sim, eu quero participar de tudo que passa
e cultivar tudo que fica.

Sentindo você correndo de leve no sorriso das amigas que andam comigo,

em conversas que não tem hora para acabar,

e em sonhos que eu inventar,

só para continuar caminhando e sabendo tudo que sou capaz.

 

2019 foi um dos mais intensos de todos,

tão cheio de informações e acontecimentos,
que às vezes me senti perdida.
Mas se teve que ser assim, eu prefiro acreditar que foi necessário

para abrir caminhos para uma nova era que exigia mesmo muita energia e aprendizado.


Uma das coisas que eu aprendi foi com o bambu,

aprendi que é sendo flexível, que a gente consegue ser resistente,

e chegar bem mais longe.
Que é preciso deixar o vento levar um pouco
e soltar.

Então, que os novos tempos sejam de muito movimento
e de liberdade.

 

2020, eu sei que você vai curar algumas feridas

que ainda não cicatrizaram,

mas eu sei também que você vai florescer as várias sementes que plantamos.

Sim, eu tenho certeza: a mulher que eu fui esse ano, plantou muitas sementes.

Mesmo que eu não veja todas elas ainda,

mas eu sinto e isso basta.

E, afinal, quando vemos a floresta dizemos que ela é verde,

porque esquecemos tudo o que está lá embaixo da terra,

prestes a romper e expandir.

Uma semente é uma explosão inteira de vida,
assim como esse ano que brota em mim.


Que 2020 seja uma explosão suave de amor e leveza,

e que não esqueçamos nenhum dia sequer

de celebrar,
a força e a beleza da mulher que mora dentro de cada uma de nós,
ou que já morou e deixou aprendizados que nos trouxeram aqui.
Pois nós vamos continuar brotando onde ninguém sequer imagina

e jogando nossos corpos

e frutos

e flores

infinitas.

Porque a força que temos juntas, ultrapassa todos os tempos.

Carregamos as que vieram antes de nós

e nutrimos a terra para as que estão vindo depois.

 

Que este novo ano exploda suavemente

toda o amor e vontade que mora dentro do nosso coração.

Porque não existe um ano novo, existe uma mulher nova,

e ela já mora bem aqui, dentro de nós.



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